[...]
.
.
.
O homem não vive somente a sua
vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da vida da
sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar
absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência, e que
da ideia de criticá-las permaneça tão distante quanto o bom Hans Castorp – até uma
pessoa assim pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos
defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar a numerosos objetivos
pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe deem o impulso para
grandes esforços e elevadas atividades; mas, quando o elemento impessoal que o
rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece
no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador,
desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que
se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta
pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo
esforço – então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mas retas,
o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além
do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do
indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a
medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória
à pergunta “Para quê?”, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência,
como raras vezes se encontram e têm um quê heroico, ou então uma vitalidade
muito robusta. Hans Castorp não possuía nem um nem outra dessas qualidades, e
portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente
decoroso.
.
.
.
[...]
.
A Montanha Mágica de Thomas Mann
.
.
.
Fulvio Machado Faria
Fulvio Machado Faria
Nenhum comentário:
Postar um comentário