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Palavra do Dia por Priberam

sábado, 4 de abril de 2026

Tempos tais dos quase quarenta

 Tempos tais dos quase quarenta

“Tempos tais em que se está próximo e se está, na verdade, longe. Em que se está longe, mas, na verdade, se está perto. Em que ser é não ser, e não estar é uma forma de ser.


A vida atual com os outros é um quase: um quase acontecimento, um quase relacionamento, um quase amor, um quase infinito que é o mesmo que nada.

 

Dizem muitos filósofos que o existir começa no pensar, para depois o agir fazer acontecer, sendo esta a base do sentido humano. Mas os filósofos atuais diriam para ficarmos apenas no pensar, pois agir é ir além e correr o risco do risco 


A educação atual é, antes de mais nada, a vocação da segurança: nunca se pode agir se não for possível prever um cenário seguro. Como não há nada de previsível, não é possível ter segurança; então, não se pode agir.


O agir, então, passa do campo físico para o metafísico. Ele vai para o pensar sem existir. Retroalimenta o pensar, o quíntupla. Nesse não agir, o pensar era um namoro que se quíntupla na metafísica do agir, em um casamento de setenta anos, mas que, na realidade, as pessoas nem de fato se viram presencialmente.


É a Era do quase, quando o agir deixou de ser físico para ser metafísico e, nessa anomalia, o que se dá são mundos do pensar tão longes que não existem. Uma clara disfunção entre o real e o virtual.”


Foi assim que Joseph narrou, em seu diário, depois de semanas, a experiência que entendeu ser, na pessoa encontrada, o amor de sua vida.

 

Vale aqui contar esta história.

 

Tudo começou pelos aplicativos modernos que permitem conexões, mesmo distantes no plano físico. 


A prosa andou rápida. Eram dois pretensos amantes com os mesmos problemas de vida. Ambos nas exaustivas ocupações de trabalho. Ambos muito sinceros com as pretensões, com as vontades, com os desejos. Intensos no debater do cotidiano, do dia a dia, que, mesmo na superfície, permitia debates profundos.

 

Até então, embora cheios um do outro, plenos de virtualização um do outro, sentiram: é preciso agir, existir. 

 

Daí começaram os inícios dos tropeços. As tentativas não ocorriam. Mais desencontros. Porém, as conversas virtuais eram intensas.

 

Foi num tropeço de postagens de internet que furam a mente que Joseph entendeu que caiu na metafísica do agir. Na página, dizia sobre os sete sinais de que a pessoa não estava nem aí para você e, bingo, todos estavam nas conversas de tentativa de encontro. “Essa semana tá corrida”; “Vamos ver”; “Depois a gente marca”; “Esqueci que tenho outro compromisso” eram frases rotineiras da pessoa que Joseph, no seu imaginário metafísico, viu futuro que, de longe, nunca existiu e iria existir.

 

Quando entendeu, o sentimento foi de muita estranheza. Como pode alguém do outro lado alimentar algo que não se quer alimentar? Seria o outro lado um robô? Como alimentar intensos debates para um quase? Seria uma psicopatia nova? 

 

Joseph simplesmente percebeu que não é possível entender, pois não se pode entender um quase, uma tentativa de algo que nunca existiu.

 

Para Joseph, mais se alumia o que os sábios mais sábios já diziam: o mundo está tão estranho que é preciso se retirar dele nas montanhas.

 

Qual será o agir de Joseph? Perguntei ao meu assistente ChatGPT e, depois de longas considerações curiosas, a resposta: 


Sugestão de fechamento possível (mantendo seu estilo):


Joseph entendeu, enfim, que o problema não era o outro.

Era o mundo que havia desaprendido a acontecer.


E talvez agir, agora, não fosse mais encontrar alguém —

mas recusar tudo aquilo que não chega a existir.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Reação do mundo sobre nós mesmos: a invisibilidade

Nosso corpo nem sempre é aquilo que a gente projeta sobre nós mesmos quando olhamos a nós mesmos no espelho, quando tiramos uma foto.

O mundo que nos vê e reage sobre nós é a linguagem que ele dá ao nosso corpo, à nossa expressão corporal. Nem sempre esse modo de o mundo nos ver é igual àquela que nós projetamos sobre nós mesmos. Digo mais. O como o mundo nos vê está muito distante daquilo que projetamos.

Essa falta de correlação entre o que projetamos sobre nós mesmos e o modo que de fato o mundo a nossa volta nos vê causa estranhezas de todas as ordens quando tomamos de fato consciência sobre essa distância, porém traz clareza sobre traumas mal compreendidos ou mal resolvidos.

Daí é preciso compreender a nossa referência de si mesmo a partir do mundo que nos enxerga e não daquilo que a gente projeta de si de forma isolada.

Na verdade, é fazer se compreender projetando-se a si mesmo a partir do mundo e não a partir daquilo que a gente quer ser.

Eis aqui a raiz dos grandes traumas que talvez sintamos dia a dia: pensar ser alguma coisa e o mundo nos entender e reagir sobre nós de outra forma.

Com o tempo percebi essa distância entre a projeção de mim sobre o mundo e o que o mundo pensa e me vê como eu mesmo.

Percebi que a projeção de mim mesmo era de um anjo intocável focado no belo desejado. Mas percebi com o tempo que o mundo, principalmente por conta da idade, não pensa, não reage sobre mim dessa forma, sequer me vê dessa forma.

Quando se percebe essa falta de correlação há um choque de realidade. Nessas condições ou se entra em trauma se enlouquecendo, se adoecendo ou se encontra saídas e soluções.

A solução talvez esteja em fazer essa projeção reagir como o mundo reage sobre você, claro de um modo especial e particular.

Nesse meu caso particular, o mundo não me observa, nesse caso particular o mundo me vê como invisível. No começo é assustador pensar e saber que é invisível aos outros, pensar e saber que os outros não tomam você com atenção. Mas depois de um tempo buscando esse objetivo de tomar a projeção de si mesmo como a mesma forma que o mundo te vê, ou seja, um mundo te vendo como invisível, automaticamente você começa a compreender que você é invisível, entender que sua imbricação com o mundo é ser a própria invisibilidade.

Claro aqui não trato das reações do mundo que são virulentas fisicamente. Pois aqui, a saída e solução seriam o ser se afastar desse ambiente ou se rebelar fisicamente a ele. Estou aqui em nível de projeção sobre aspectos psicológicos, que se mesmo após essas situações a solução continuar ainda traumática, a melhor solução é se afastar do ambiente nocivo e buscar medidas outras.

Agora, voltando a este meu caso particular, transformando essa nova percepção com o mundo em energia positiva, em algo bom para você mesmo, você compreende que ser invisível é talvez a maior das artes.

Ser invisível é poder estar em todos os lugares sem ser julgado, é poder estar em todos os lugares sem ser tocado, é poder estar livre, livre para circular. Claro que eventualmente somos julgados nos ambientes que estamos. Porém, se sentir invisível tira o peso do julgamento que eventualmente existirá.

No fim das contas, esse é um dom que o mundo me deu. Hoje não vejo como rejeição. Não vejo como falta de afeto. Vejo como uma naturalidade daquele ser que circula e não é ameaçado, que circula e não é desejado. Mas essa rejeição, essa falta de apego a este indivíduo gera uma força sobre o mundo por poder este individuo estar sobre, entre ele e estar nele livremente e sem embaraço.

Isso é tremendamente libertador, isso dá liberdade, isso talvez seja a liberdade. Já diria Victor Hugo: estar abandonado é estar livre. Saber lidar com o abandono é um desafio, mas depois que você descobre a importância de estar abandonado essa rejeição muda seu caráter de algo traumático para algo benéfico.

Minhas últimas sínteses têm sido: esteja abandonado (mesmo que por força maior) e esteja livre!

domingo, 3 de maio de 2020

"Muita vez, a causa principal da pobreza, em ciência, é a riqueza presumida. A finalidade da ciência não é abrir a porta ao saber infinito. Mas colocar um limite à infinitude de erros. Tomem as suas notas." A vida de Galileu, de Bertolt Brecht

Em tempos em que ciência deve coordenar as ações políticas, vários políticos tomam para si uma riqueza presumida de saber como se dará ou não determinada medida. Nada mais fazem do que pobreza em ciência (ou melhor, não ciência).

A ciência que aponta hoje é a riqueza de saberes de vários anos, décadas, centenas de anos. É a que tem métodos antigos e muitos testados para as séries históricas e dados testáveis para os tempos de hoje.

Por outro lado, apostar na presunção de uma fátua experiência individual de vida que não passa de três a seis décadas de experiências, e de que, a partir delas, se sabe conduzir, é nada mais que riqueza presumida, como bem desenhou Brecht, nada mais é que arrogância das mais pueris.

Eu, nessa história toda, fico com a ciência de Galileu, fico com a ciência de Brecht, fico com os cientistas de hoje que não fazem de suas ciências apenas um apanágio de riqueza presumida, de uma arrogância pessoal.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

No mundo que vivo ninguém quer saber o que tenho a dizer. Então, aprendi a não falar. Reverter tudo pra minha imaginação é o que se deu para fazer. Ainda bem que este campo é infinito. Mas para ser fértil é preciso estar longe do mundo externo que não quer ouvir o meu dizer, pois o que vem de fora atinge o que vem de dentro. Daí não viver, ou viver cada vez menos, socialmente é o caminho que irriga o solo da minha imaginação. Tenho feito, e digo que viver assim traz mais conforto.

domingo, 22 de abril de 2018

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As coisas são mais belas distantes. Quanto mais próximo estamos delas, mais aumenta o desafio por mantê-las ainda belas. Até que de uma admiração e contemplação passa-se a um estágio de repulsa, de hostilização, de um caça aos erros e falhas. Mais anos vão, mais anos vêm, e percebo cada vez mais que esta síntese se aplica a quase todas as relações humanas, sejam elas entre humanos e objetos ou entre humanos e humanos. Daí é fácil apreciarmos ídolos musicais, pois que distantes estão. Daí que hostilizamos aqueles que estão próximos, pois mais fácil identificar seus erros e falhas. A solução seria fácil: compreender sempre as coisas e as pessoas até o limiar da porta de seus universos, sempre à distância, nunca mergulhar em seus mundos ou perscrutar seus detalhes. Do meu lado, fui para outra solução, tenho sido míope quando mais próximo estou, diminuindo o rigor da minha moralidade.
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domingo, 15 de abril de 2018

Não conviver socialmente. É o manifesto da minha dor.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Um carro fiat uno passou acelerado pela rua!

Um carro fiat uno passou acelerado pela rua!

São pessoas querendo partir o mundo. Pegando-lhe a maior parte sempre quando possível. Mal surte a pequena felicidade e a querem. Mas quando vão ao encontro dela para possui-la caem num estrondoso tédio. Como são infelizes. Realmente o são por falta de qualificação. Em que tempo já se percebeu que todos que se dizem homens já conseguiram a felicidade plena livre de sofrimentos? Em tempo nenhum. Dizem que está tudo certo e tudo bem, mas sabemos que não é assim. Repelem-nos quando dizemos verdades, pois inconscientemente dizemos: não há esperança. E muitos não querem crer em tal negação.

Esperança é esperar, esperar algo, que está no futuro. Ora, quem vive de esperança não vive e sim se ausenta ao seu tempo a espera de um melhor. Mas veja, um douto me disse que o tempo em-si não existe, o que existe é o movimento, e o movimento só é perceptível ao agora, ao presente; ao passado só é possível representar, como um belo casal que reproduz Romeu e Julieta, não o reproduzem na perfeição em que se criou. E o futuro? Pobre coitado, nem foi movimentado, vive de especulações.

Disseram-me que não estou bem, que minhas férias me fizeram mal. Se isto ocorreu, não sei. Mas sei que ela me fez desvalorizar mais a pobreza eterna do homem: a ignorância petrificada. Esta que vem com os homens e dele não sai por vontade do próprio homem. Como seriam tristes se soubessem da verdade. *[Mas qual verdade?]

Escrito em meados de 06/08/2009

* post scriptum na data dessa publicação

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