Tempos tais dos quase quarenta
“Tempos tais em que se está próximo e se está, na verdade, longe. Em que se está longe, mas, na verdade, se está perto. Em que ser é não ser, e não estar é uma forma de ser.
A vida atual com os outros é um quase: um quase acontecimento, um quase relacionamento, um quase amor, um quase infinito que é o mesmo que nada.
Dizem muitos filósofos que o existir começa no pensar, para depois o agir fazer acontecer, sendo esta a base do sentido humano. Mas os filósofos atuais diriam para ficarmos apenas no pensar, pois agir é ir além e correr o risco do risco
A educação atual é, antes de mais nada, a vocação da segurança: nunca se pode agir se não for possível prever um cenário seguro. Como não há nada de previsível, não é possível ter segurança; então, não se pode agir.
O agir, então, passa do campo físico para o metafísico. Ele vai para o pensar sem existir. Retroalimenta o pensar, o quíntupla. Nesse não agir, o pensar era um namoro que se quíntupla na metafísica do agir, em um casamento de setenta anos, mas que, na realidade, as pessoas nem de fato se viram presencialmente.
É a Era do quase, quando o agir deixou de ser físico para ser metafísico e, nessa anomalia, o que se dá são mundos do pensar tão longes que não existem. Uma clara disfunção entre o real e o virtual.”
Foi assim que Joseph narrou, em seu diário, depois de semanas, a experiência que entendeu ser, na pessoa encontrada, o amor de sua vida.
Vale aqui contar esta história.
Tudo começou pelos aplicativos modernos que permitem conexões, mesmo distantes no plano físico.
A prosa andou rápida. Eram dois pretensos amantes com os mesmos problemas de vida. Ambos nas exaustivas ocupações de trabalho. Ambos muito sinceros com as pretensões, com as vontades, com os desejos. Intensos no debater do cotidiano, do dia a dia, que, mesmo na superfície, permitia debates profundos.
Até então, embora cheios um do outro, plenos de virtualização um do outro, sentiram: é preciso agir, existir.
Daí começaram os inícios dos tropeços. As tentativas não ocorriam. Mais desencontros. Porém, as conversas virtuais eram intensas.
Foi num tropeço de postagens de internet que furam a mente que Joseph entendeu que caiu na metafísica do agir. Na página, dizia sobre os sete sinais de que a pessoa não estava nem aí para você e, bingo, todos estavam nas conversas de tentativa de encontro. “Essa semana tá corrida”; “Vamos ver”; “Depois a gente marca”; “Esqueci que tenho outro compromisso” eram frases rotineiras da pessoa que Joseph, no seu imaginário metafísico, viu futuro que, de longe, nunca existiu e iria existir.
Quando entendeu, o sentimento foi de muita estranheza. Como pode alguém do outro lado alimentar algo que não se quer alimentar? Seria o outro lado um robô? Como alimentar intensos debates para um quase? Seria uma psicopatia nova?
Joseph simplesmente percebeu que não é possível entender, pois não se pode entender um quase, uma tentativa de algo que nunca existiu.
Para Joseph, mais se alumia o que os sábios mais sábios já diziam: o mundo está tão estranho que é preciso se retirar dele nas montanhas.
Qual será o agir de Joseph? Perguntei ao meu assistente ChatGPT e, depois de longas considerações curiosas, a resposta:
“Sugestão de fechamento possível (mantendo seu estilo):
Joseph entendeu, enfim, que o problema não era o outro.
Era o mundo que havia desaprendido a acontecer.
E talvez agir, agora, não fosse mais encontrar alguém —
mas recusar tudo aquilo que não chega a existir.”
