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Digressão sobre o sentido do tempo.
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“[...]
E grande satisfação
invadia a alma de Hans Castorp, ao pensar nas duas horas vazias, cheias de paz
assegurada, que tinha à sua frente, essas horas sagradas que o regulamento da
casa destinava ao repouso principal, e que ele, apesar de ser um simples
visitante, aprovava como uma instituição inteiramente adequada ao seu caráter. Pois
Hans Castorp era paciente por natureza, e bem capaz de passar muito tempo sem
nada fazer. Conforme nos recordamos, adorava esse lazer que nenhuma atividade
atordoadora ousa obliterar, consumir, afugentar. Às quatro horas iria tomar o
chá da tarde, com bolo e confeitos; depois haveria um novo repouso na espreguiçadeira;
às sete, vinha o jantar, que, como todas as refeições, ofereceria algumas sensações
e certos aspectos curiosos, dignos de serem aguardados com prazer; depois,
alguns olhares no interior da caixa estereoscópica, no caleidoscópio em forma
de luneta, e no tambor cinematográfico... Hans Castorp já sabia de cor o
programa do dia, ainda que fosse exagero dizer que já se “aclimatara”
perfeitamente.
No fundo
constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a
adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as
pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la
imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado
anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou
entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de “restabelecimento”,
quer dizer, para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria
perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na
desarticulada monotonia da existência rotineira. Mas, qual é a origem desse
langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e
ininterrupta de uma rotina? Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e
espiritual, que causam as exigências da vida – para eles, o simples descanso
bastaria como remédio reconstituinte –, do que de algo psíquico: é a consciência
do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão
estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode
debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também. Com respeito à natureza
do tédio encontram-se frequentemente conceitos errôneos. Crê-se em geral que a
novidade e o caráter interessante do conteúdo “fazem passar” o tempo, quer
dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e
retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que
a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem “tediosos” o momento e a hora;
porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a
ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por
outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o
ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do
tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar
do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se
vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade
mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os
grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração
um susto mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa
uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e
decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito representa a madorra, ou ao
menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato de os anos de infância serem
vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge
cada vez mais depressa – esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente
que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único
meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para
obter um rejuvenescimento, um esforço, um retardamento da nossa experiência do
tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a
finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside
o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente
novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto se aplica a uns
seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se “aclimata”, começa a
sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem
gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se
leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo –
é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso
senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando
a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação,
se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns
poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão.
E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o
possui desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital –, volta
a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal
pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse
do sonho de uma noite.
Inserimos aqui
essas observações porque o jovem Hans Castorp tinha em mente ideias análogas,
quando, depois de alguns dias, disse ao primo, fixando nele os olhos estriados
de sangue:
– É mesmo
curioso como o tempo, no começo, parece longo a quem se encontra num lugar
estranho. Quer dizer... Absolutamente não me aborreço; nada disso! Ao contrário,
posso afirmar que me divirto esplendidamente. Mas quando olho para trás – em retrospectiva,
sabe? – tenho a impressão de estar aqui há não sei quanto tempo já. E de agora
até aquele momento em que cheguei a Davos-Dorf e não compreendi que já estava
no fim da minha viagem e você me disse: “Pode descer” – lembra-se ainda? –,
isto me parece toda uma eternidade. Essas coisas nada têm a ver com medidas e
raciocínios. São puramente questão de sentimentos. Claro que seria tolice
dizer: “Tenho a impressão de estar aqui há dois meses”; isto seria um absurdo. Só
posso dizer: “Há muito tempo já”.
– Pois é –
disse Joachim, com o termômetro na boca. – Eu também me aproveito disso. De certo
modo, posso me segurar em você, desde que está aqui. – E Hans Castorp riu-se de
que o primo dissesse isso assim tão simplesmente, sem acrescentar nenhuma explicação.”
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A Montanha
Mágica – por Thomas Mann
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Fulvio Machado Faria
Fulvio Machado Faria
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