Palavra do Dia por Priberam

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Minha Querida

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Chega-se a uma idade que o brilho da imaginação perde espaço para a vida prática, costumeira, daqueles homens de vida social prática. Antes, meu mundo me era dado pela imaginação, nela as coisas eram possíveis tendo como limite as condicionantes espaciais e temporais. De resto tudo era possível, estar em constante ilusão por aquilo que a imaginação pudesse me oferecer.

Como ser biológico, tenho necessidades energéticas e fisiológicas para manter esta máquina. Na fraseologia de Karl Marx, para se produzir algo, há necessidade antes de se consumir algo; no mesmo sentido que quando se está consumindo algo, está-se produzindo algo. Forma-se assim uma cadeia, cujas causas e efeitos extremos são difíceis de verificação. Esta cadeia forma o sucedâneo: ... consumo - produção - consumo – produção .....


Para não perder o raciocínio, hoje - como ser biológico que sou – dependo de consumos para manter vivo o ser biológico, ou seja, para produzir-se vida. Este consumo depende de uma produção social do meu ser, depende de eu ser algo produtivo para a sociedade, a qual me dará direito a consumir e, por consequência, produzir minha própria vida.

Ser produtivo para sociedade demanda tempo, pois estamos presos às condicionantes temporais e espaciais, assim como demandou dos meus pais.

Na medida em que me é exigido ser produtivo socialmente, não consigo tempo mais para a produção imaginativa.

A imaginação é o instrumento mais rico, o jubilo mais intenso daquele que não detém bens materiais, ela fornece um mundo sem fim que se encerra dentro de uma pequena cabeça. Propicia uma miríade de sensações. Sábio é aquele que bem a usa.

Quando o mundo me exige ser prático, produzir para a sociedade, o tempo para a produção da imaginação vai-se embora.

As consequências disso encerram no meu ser uma pessoa mais objetiva, focado naquilo que tem relevância objetiva para a sociedade. Vou perdendo o caráter sutil das coisas, perdendo o prazer pelas incertezas ofertadas pela rica imaginação. Exige-se objetividade, já que é dever ser prático. Aniquila-se aquilo com o que se podia contar nas horas de solidão. Ganha espaço na consciência algo térreo, sem sentido, buscas do mundo prático, que já tem um caminho aparentemente pré-definido.

Essa questão de ser homem prático e prover o próprio sustento está colocando fora de vez minha imaginação, aquilo que toca apenas a cada pessoa.


Faz-me ser o transeunte visto pela janela da casa de Fernando Pessoa, os personagens da Comédia Humana de Balzac; um homem médio.


Por isso, nas pessoas, como eu, muito satisfaz as lembranças da infância, pois nela estávamos exercendo a imaginação plena, conquistávamos todo o universo numa só consciência. Éramos mais vivos. Hoje, apenas recordamos esta fase lamentando sua ida, tentamos nos reencontrar vendo novas crianças, tendo filhos, netos.

Talvez, eu, nós, não precisássemos de tantos caminhos indiretos. Bastando apenas o cultivo da imaginação, reservando-nos parte do nosso dia ao cultivo dela, sem repressões dos outros com o jargão: já está velho demais para isso. Sociedade, por favor, requeira produção imaginativa!
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Boa noite!
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2 comentários:

  1. Os proprios personagens de Balzac, vistos por outra ótica, são também homens médios.

    O que fugiria do homem médio, um louco? Um alien, na acepção do Ms. Bukowski?

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  2. Exato, Balzac faz a leitura dos personagens cotidianos, mostra ao leitor as entrelinhas daquelas relações, portanto, (in)discutivelmente, todos os personagens do Balzac podem ser considerados homens médios, o que releva a grandiosidade da obra é o personagem-narrador que comenta e narra a vida desses homens.

    Entendo que a noção de homem médio, homem prático, está relacionada com a sociedade e dela não se dissocia. Aquele que não quer ser médio, acredito, bastaria experimentar situações em que a sociedade não almeja ou ignora, ou seja, ser um não homem médio é fazer o que a sociedade ignora. E é sabido e experimentado por mim que a sociedade ignora a imaginação, acredita como viajante ou coisa de vagabundo especulações imaginárias. Talvez isso possa se passar de outra forma com as pessoas, mas, é essa a impressão que venho tendo. Nas horas de lazer a sociedade nos enche de atividades objetivas e não criativas, isso abre caminho para um comportamento padrão dos seres, daí resultante a objetividade. Vamos dizer, deixa as pessoas sem cores, ou melhor, num só tom.

    Obrigado pelo comentário e pela leitura do texto,
    Grande abraço.

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